top of page
Buscar

Por Adyashanti - Intimidade e disponibilidade

''O não saber'' é algo que é menosprezado em nossa cultura. A maioria de nós fomos condicionados a acreditar que o não saber é algo que não vale apena. Quando você faz um teste na escola, por exemplo, e você não sabe a resposta, você se sente ansioso, como se você tivesse feito algo de errado, e você se sente estressado tentando se lembrar das respostas. Porém, no contexto da inquirição espiritual, na realidade nós abandonamos a necessidade de tentar saber. Nós abandonamos a certeza conceitual.

Agora, se permita vivenciar sua experiência de simplesmente não saber, - não saber o que ou quem você é, sem saber o que este momento é, sem saber nada. Se você se der esse presente de não saber e seguir, um amplo espaço e uma abertura misteriosa surge em você. Relaxar no não saber é como se render em uma grande e confortável cadeira, você apenas se jogue nesse campo de possibilidades.

Quando você primeiramente encontra esse campo do não saber você pode se sentir vulnerável, esse campo de incerteza pode lhe fazer se sentir ''nú'', pois você não está se protegendo. Você pode investigar diretamente nisso: O que é em você que se sente vulnerável? O que realmente é? A sua mente vai lhe dizer que é você que se sente vulnerável. Porém, se você olhar e investigar, você vai perceber que é apenas um pensamento: ''eu sou vulnerável''. É um pensamento baseado em memória. Cada um de nós, através do processo do crescimento, tivemos momentos em que alguém tomou vantagem sobre nós, que confrontou nós e que nos falaram que estávamos errados. Nós aprendemos que estar aberto poderia não ser a melhor ideia.

A maioria dos adultos estão dessensibilizados para a abertura e a inocência da criança. Quando éramos criança e a nossa vulnerabilidade natural foi violentada, um traço sobreviveu, uma memória dolorosa, que resulta nesse recuo. Esse tipo de memória permanece em nós, causando em nós a conclusão: ''Se eu permitir a mim mesmo ser muito vulnerável e aberto, eu provavelmente irei sofrer, eu não deveria fazer isso.'' Porém, essa vulnerabilidade esta sempre lá, seja a gente consciente dela ou não. Não significa que nós estamos mais protegidos quando nós usamos 'armaduras' com uma auto-imagem e outras ideias daquilo oque somos. Na realidade, o esforço de se proteger não funciona.

Quando nós nos protegemos, quando nós nos fechamos para esse estado natural de abertura e vulnerabilidade, o que é que nós estamos protegendo? Nós estamos protegendo algo que realmente esteja aqui, ou apenas uma imagem de nós mesmos, guardada na memória? Se o sentimento de abertura e vulnerabilidade ativa a memória no momento presente, simplesmente permita a memória, junto com as emoções associadas, sem reprimir. Porém ver e sentir pelo que é e como é: apenas uma memória surgindo no momento presente, no espaço do agora. Se você sabe que foi apenas uma memória que surgiu desse espaço de abertura, então você descobre que não é algo que está acontecendo agora, é apenas uma memória do passado. Está surgindo do passado. Porém agora, essa memória não é tão intimidadora, não está nos ameaçando. É tudo bem permitir que memórias antigas surjam; elas não são os problemas em si.

Conforme você se acostuma a relaxar mais e mais no espaço do não saber, você vai notar uma sensação de intimidade surgindo cada vez mais de você, mas não uma intimidade com algo, mas uma intimidade impessoal. Nós normalmente pensamos em intimidade com o que eu estou intimo. E esse ponto e vista cria uma separação entre ''eu'' e o que eu estou intimo. Isso não é o tipo de intimidade que surge dessa abertura do não saber. O que surge nessa abertura é pura intimidade. Não é uma intimidade com uma coisa ou outra. É um sentimento de completa união com toda parte da experiência, com a vida toda.

Existiu um grande mestre Zen chamado Dogen que viveu a 100 anos atrás, e uma de suas definições de iluminação era ''a intimidade com as dez mil coisas''. É claro, nesse contexto do ensinamento, ''as dez mil coisas'' significava tudo. Então, quando nós nos abrimos para este espaço do não saber, nós começamos a sentir uma intimidade com toda nossa experiência. A sensação de distância começa a se dissolver, e o que nasce nesse espaço do não saber é uma sensação de presença. É algo muito sutil. Nós começamos a se conectar com algo sem limites, sem barreiras, sem definições. É algo completamente vasto.

Uma das qualidades primárias do espaço do não saber é 'consciente', existe uma consciência natural. Consciência simplesmente significa uma pura percepção daquilo que está sendo experienciado. O não saber é auto consciente, auto conscio. Os budista tibetanos chamam isso de 'auto-luminoso'. A realidade mais profunda de o que nós somos é esse espaço de consciência que é auto-luminoso, que conhece a si mesmo, é um espaço de puro não saber consciente.

Se você se permitir sentir visceralmente e emocionalmente esse espaço de ser, é possível que você veja esse espaço do não saber, esse puro espaço de consciência, é na realidade o que você é no nível mais essencial. É o espaço de você que sempre existiu e nunca mudou. tudo aconteceu nesse espaço de puro ser, sapura consciência. Se você se permitir sentir isso, estar aberto para isso, você perceberá que esse espaço sempre esteve com você e nunca não esteve em nenhum momento, nunca esteve ausente, é a sua verdadeira natureza.


Tradução do livro Falling into Grace de Adyashanti.

69 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page