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O amigo espiritual (mestre) por Pema Chodrom

O AMIGO ESPIRITUAL

A verdadeira função do amigo espiritual é insultar você.

- CHÖGYAM TRUNGPA RINPOCHE


Guerreiros em treinamento precisam de alguém que os guie - um mestre guerreiro, um professor, um amigo espiritual, alguém que conheça bem o território e que possa ajudá-los a encontrar o caminho. Existem diferentes níveis no relacionamento entre professor e aluno. Para algumas pessoas, ler um livro ou ouvir os ensinamentos de um professor específico já é suficiente. Outras podem querer se tornar um aluno daquele professor - pedindo orientação de vez em quando. Esse tipo de relacionamento é valioso para muitos. É raro que os alunos se sintam, inicialmente, prontos para um compromisso incondicional com um professor, de modo a trabalhar intimamente as áreas que procuram evitar. Não são muitos aqueles que têm tanta confiança assim em outra pessoa, tanta disposição para serem vistos sem suas máscaras. É sábio, na verdade, não nos apressarmos em assumir esse tipo de relacionamento sem, an-tes, desenvolvermos maitri para conosco e a convicção de que esse professor em particular é confiável. Esses são os pré-requisitos para se assumir um compromisso mais profundo com um amigo espiritual.


Em 1974, quando perguntei a Trunga Rinpoche se eu poderia ser sua aluna, eu não estava preparada para assumir um relacionamento incondicional. No entanto, pela primeira vez na vida, eu havia encontrado uma pessoa que não estava presa, uma pessoa cuja mente nunca era arrastada. Compreendi que, guiada por ele, isso também seria possível para mim. Fui atraída para ele porque não conseguia manipulá-lo; ele sabia como ver através das fantasias dos outros. Eu senti esse "ver através" como ameaçador, mas de um modo muito revigorante. Ainda assim, levei anos para desenvolver confiança e maitri pessoal suficientes para me entregar por completo ao relacionamento. Aproximar-se de alguém tão perigoso para o ego leva tempo.

O relacionamento com um professor pode evoluir ao ponto de confiança e amor incondicionais ou não. Precisamos confiar no processo. Em qualquer dos casos, o relacionamento com um professor nos encoraja a confiar em nossa sabedoria fundamen-tal. Ele nos ensina a sermos firmes com nós mesmos. Na tradição do guerreiro diz-se que tanto o professor quanto o aluno estão totalmente despertos, que entre o professor e o aluno pode existir um encontro de mentes. O papel do professor é ajudar o aluno a compreender que sua mente desperta e a mente do professor são a mesma. Em algum ponto ocorre uma importante mudança de lealdade. Em vez de sempre nos identificarmos com nossas neuroses, começamos a ter confiança em nossa inteligência e nossa bondade fundamental. Essa é uma mudança significativa. Sem desenvolver essa confiança básica em nós mesmos, é impossível prosseguirmos com um professor. No entanto, uma vez que estejamos preparados para entrar em um relacionamento incondicional, este nos ensinará como ficarmos estáveis em qualquer situação. Entrar nesse nível de comprometimento com uma pessoa nos prepara para ficarmos abertos não somente para o profesos, mas também para a totalidade da posa experiência. O professor é um ser humano completamen. no desenvolvido, não um ideal espiritual. Nesse relacionamento, tomo em qualquer outro, iremos experimentar gostos e desgos ros. Poderemos nos encontrar bem no meio do caos e da inse-gurança. Esse relacionamento nos mostrará se nosso coração é grande o suficiente para acolher toda a gama de experiências da vida - não somente a parte que aprovamos. Até o ponto que somos capazes de permanecer firmes com nosso amigo espiritual, até esse ponto podemos permanecer firmes com o mundo como ele é, com toda a sua violência e sua ternura, com sua maldade e seus momentos de coragem. Verificamos que estamos nos abrindo de uma maneira que nunca pensamos ser possível.

O treinamento bodisatva nos encoraja a ter um envolvimento apaixonado com a vida, não considerando nenhuma emoção ou ação como indigna de nosso amor e de nossa compaixão, não considerando nenhuma pessoa ou situação como inaceitável. Portanto, esse caminho exige disciplina e precisa, também, de orientação.

A questão é quanto de orientação estamos preparados para aceitar.

Na ausência de um conjunto estreito e restritivo de regras, precisamos de alguém que nos mostre, quando isso ocorrer, que estamos fora dos trilhos, alguém que ouviríamos.

O que quer que façamos, o professor é extraordinariamente adaptável e leal ao processo do nosso despertar. Esse mestre guerreiro serve como um espelho que nos mostra nossa mente com uma precisão constrangedora. Quanto mais confiarmos em nós mesmos e no professor, mais permitiremos que ocorra esse espe-lhamento. Nós nos dirigimos, devagar, na direção de permitir que qualquer pessoa que encontremos seja nosso professor. Nós nos tornamos mais capazes de compreender a máxima do treinamento da mente: "Seja grato a todos."


No entanto, não pensamos no professor como detentor de toda a sabedoria, ao passo que não temos nenhuma. Existe esperança e medo em demasia nesse tipo de arranjo. Se me tivessem aconselhado a nunca questionar meus professores, eu não teria durado muito como aluna. Fui sempre encorajada a usar minha inteligência crítica e a expressar minhas preocupações, sem medo. Na realidade, fui aconselhada a questionar a autoridade e as regras. o É importante compreender que a mente do professor e a do aluno se encontram não por estar o professor totalmente certo ou totalmente errado, mas na ambiguidade entre essas duas visões, na capacidade dessas mentes de conterem a incerteza e o paradoxo. Do contrário, nossa adulação inevitavelmente se transformaria em desilusão. Fugimos quando o professor não se encaixa em nossas concepções prévias. Não gostamos de suas opiniões políticas, ou do fato de ele comer carne, beber álcool ou fumar cigarros. Saímos de lá porque não gostamos da mudança na política organizacional ou porque nos sentimos desconsiderados ou negligenciados. Ficamos, por um período de lua de mel, dotando o relacionamento de todos os nossos desejos de sermos amados de uma maneira ideal, descomplicada. Então, inevitavelmente, nossas expectativas são frustradas e emergem as questões emocionais não resolvidas. Sentimo-nos usados, traídos e desiludidos. Não queremos nutrir esses sentimentos dolorosos e então vamos embora. ob

O ponto principal é, sempre, como trabalhamos nossa mente.

Uma vez encaixada em visões sólidas de justificações ou de recrimi-nações, nossa mente se torna muito pequena. Fechar-se de qualquer forma causa a escalada do sofrimento. Nossas visões sólidas podem assumir a forma de " professor é perfeito e nunca erra" ou "o professor é um charlatão e nunca poderei confiar nele". Ambas são expressões de congelamento da mente. Gostamos de falar sobre a mente vasta, aberta, completamente clara e espaçosa. Mas podemos permanecer na abertura que se apresenta quando o chão desaba sob nosso sonho?

Mesmo que realmente deixemos o professor, se pudermos ficar com a dor e o desapontamento, sem justificativas ou condena-ções, esse professor nos terá ensinado bem. Praticar nessas condições pode ser o exemplo definitivo da máxima: "Se puder praticar mesmo quando estiver distraído, você estará bem treinado.

Ao trabalhar com um amigo espiritual, aprendemos a amar de uma maneira aberta - a amar e a sermos amados incondicional-mente. Não estamos acostumados a esse tipo de amor. É o que todos nós queremos, mas é o que todos nós temos dificuldade para dar. No meu caso, eu aprendi como amar e ser amada observando o meu professor. Quando vi quão incondicionalmente ele amava as outras pessoas, eu comecei a confiar em que ele podia amar também a mim. Eu vi, por mim mesma, o que significa nunca desistir de ninguém.

Certa vez, aconteceu algo nesse sentido que me afetou profun-damente. Um dos alunos mais antigos de Trungpa Rinpoche, Joe, estava passando por dificuldades emocionais, causando problemas a todo mundo. O Rinpoche parecia ignorar as reclamações dos outros alunos sobre o comportamento agressivo de Joe. No en-tanto, quando Joe agrediu ferozmente uma mulher e a estapeou, o Rinpoche gritou: "Fora! Eu quero você fora daqui, agora! Eu não quero mais ver a sua cara!" Joe saiu, em estado de choque. Os outros alunos se reuniram em volta do Rinpoche, dizendo: "Estamos lão contentes que tenha se livrado do Joe. Ele fez essa coisa hor-Fivel ontem, e essa coisa horrorosa essa manhã... Obrigado por (é o mandado embora? O Rinpoche se empertigou, firmemente, edise: Acho que vocês não entenderam: loe e eu somos grandes amigos" Eu acho que Trungpa Rinpoche se colocaria na frente de um trem em alta velocidade, se achasse que isso nos ajudaria a despertar.

Esse compromisso incondicional, conosco e com os outros, é o que significa amor sem limites. O amor do professor pelo aluno se manifesta como compaixão. O amor do aluno pelo professor é de-voção. Esse calor mútuo, essa ligação de corações, permite que haja um encontro de mentes. É essa espécie de amor que doma os seres indomáveis e ajuda os bodisatvas em treinamento a irem além dos lugares que já conhecem. O relacionamento com nosso amigo espiritual nos inspira a avançar sem medo e a começar a exploração do mundo fenomenal.



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