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Por adyashanti, DESPERTANDO NO NÍVEL DO CORAÇÃO (parte 2)

DESPERTANDO NO NÍVEL DO CORAÇÃO


A palavra coração refere-se a todo o nosso sistema emocional, a todo o nosso corpo emocional. Estar desperto no nível da emoção significa não mais extrair um senso de self do como e do que sentimos. Se nos sentimos bem, se nos sentimos mal, se nos sentimos saudáveis, doentes, despertos ou cansados, não estamos mais encontrando e extraindo um senso de self daquilo que vivenciamos.

Normalmente, nosso senso de self está ligado e emaranhado àquilo que sentimos. Se afirmamos para nós mesmos: "Sinto-me raivoso" ou "Estou com raiva", o que estamos realmente dizendo é que nesse momento meu senso de self fundiu-se com a emoção da raiva. E, é claro, essa fusão é uma ilusão, porque o que somos não pode ser definido por uma emoção que percorre o corpo.

Despertar no nível da emoção significa que começamos a ver e compreender que o que sentimos não nos diz quem e o que somos. Diz o que sentimos; ponto. O que sentimos não precisa ser evitado ou negado, mas não nos define. Quando não mais definimos o self no nível da emoção, nosso senso de self é liberado do nível da emoção, é liberado dos sentimentos conflitantes que estão nesse nível.

Para a maioria dos seres humanos, não mais ser definido por aquilo que sente representa uma transformação revolucionária.

Mas, é claro, não podemos chegar lá evitando o que sentimos.

Nossas emoções e nossos sentimentos são, na verdade, indicadores fantásticos para o que não está resolvido em nosso ser, para o que podemos ou não ter visto. Nosso corpo é um grande medidor da verdade; assim que entramos em um senso emocional de divisão - ódio, inveja, ciúme, ganância, culpa, vergonha etc. -, sabemos que estamos percebendo desde um estado de divisão.

Essas emoções que surgem da divisão são como pequenas bandeiras vermelhas, lembrando-nos de que não estamos identificando a verdadeira natureza das coisas.

A confusão emocional nos diz que temos uma crença inconsciente que não é verdadeira. Nossa mente empacotou algo - talvez tenha acondicionado um evento no presente; talvez tenha embalado o passado. O que sabemos é que ela empacotou um evento de tal forma que está provocando confusão.

O corpo emocional é um meio fantástico para se entrar em algo e em tudo que precisa ser visto. É um ponto de entrada em qualquer ilusão, em qualquer coisa que cause um sentido de separação. Se somos emocionalmente instáveis, se podemos ser tirados de nosso equilíbrio emocional com muita facilidade, então é vital começar a olhar para a nossa vida emocional. Não quero com isso dizer que precisamos analisar nossas emoções e abordá-las terapeuticamente - isso pode ser necessário e benéfico para algumas pessoas, mas não é sobre isso que estou falando aqui.

Estou falando de investigar a natureza do medo, a natureza da raiva. Quando sentimos uma contração emocional, do que se trata essa contração?

A maior parte de nossas emoções, especialmente as chamadas emoções negativas, pode estar ligada à raiva, ao medo e ao julgamento. Esses três estados são gerados quando acreditamos em nossos pensamentos. Nossa vida emocional e nossa vida intelectual não estão realmente separadas; são uma só coisa. Nossa vida emocional revela a nossa vida intelectual inconsciente. Reagimos emocionalmente a pensamentos que em geral nem sabemos que estamos tendo; dessa forma, esses pensamentos inconscientes são manifestados.

Com frequência as pessoas vêm até mim com alguma emoção específica que as está incomodando - pode ser medo, raiva, ressentimento, ciúme, qualquer coisa. Digo-lhes que se quiserem liberá-la, precisam alcançar a visão de mundo subjacente ao sentimento. O que a emoção diria se pudesse falar? Que padrões de crenças ela carrega? O que ela está julgando?

O que estou realmente perguntando é como essa pessoa esta sendo atraída para um estado de divisão emocional. Como disse, somos programados para experienciar emoção negativa toda vez que percebemos a partir de um estado de divisão. Nossa vida emocional é um indicador claro e confiável de quando estamos percebendo as coisas a partir da divisão. Sempre que entramos na divisão, há um nível de conflito emocional que podemos sentir, o qual pode funcionar como um pedido de atenção. Assim que alguém sente um conflito emocional, as questões que deveriam ser feitas são: "De que maneira estou entrando na divisão? Neste momento, o que está causando esta sensação de separação, de isolamento ou de querer me defender? Em que estou acreditando? Que suposições estabeleci que estão sendo reproduzidas em meu corpo e manifestando-se como emoção?"

Dessa forma, emoção e pensamento estão conectados; são duas manifestações da mesma coisa. Não podem ser separados.

Normalmente, quando as pessoas chegam até mim com uma emoção negativa, peço-lhes que identifiquem o pensamento que está por trás da emoção ou sentimento. Às vezes, as pessoas insistem não ter um pensamento por trás da emoção. Nesse caso, sugiro que elas se sentem com a emoção e meditem a respeito. Se a emoção pudesse falar, o que ela diria?

Mais e mais, noto que quando as pessoas trabalham com um sentimento difícil por um dia, dois dias ou uma semana, elas têm aquele tipo de "aha!". Elas dizem: "Adya, realmente acreditava que não havia nenhum pensamento ligado à minha emoção.

Achava que fosse apenas medo ou raiva ou ressentimento. Mas, na verdade, quando mergulhei fundo na emoção e fiquei em silêncio, de repente comecei a ouvir a história. Pude ouvir os pensamentos que estavam criando a emoção".

Uma vez capazes de encontrar os pensamentos que estão gerando suas emoções, as pessoas podem começar a questionar qual o pensamento, exatamente, e se ele é verdadeiro. Porque, claro, nenhum pensamento que causa divisão é verdadeiro.

Isso é chocante. Todos crescemos em um mundo onde, acreditava-se, certas emoções negativas podiam ser justificadas. O sentimento de ser uma vítima é um bom exemplo. Afirmamos:

"Bem, isto ou aquilo aconteceu comigo, fulano ou sicrano me fez alguma coisa e, por isso, sou uma vítima". Podemos construir toda uma vida intelectual e emocional em torno da crença de que temos uma justificativa para ser vítima. Mas quando olhamos para isso, vemos que é apenas um meio pelo qual entramos na separação. A realidade não vê as coisas em termos de vítimas. Ela vê as coisas de uma perspectiva totalmente diferente. Podemos pensar: "Fulano ou sicrano não devia ter me dito isto", mas a realidade é que disseram. Assim que a mente diz que alguma coisa não devia ter acontecido, experienciamos uma divisão interna.

É imediata. Por que experimentamos a divisão? Porque estamos argumentando com a realidade.

Isto é muito certo: se argumentamos com a realidade, por qualquer razão, entramos na divisão. É assim que as coisas funcionam. A realidade simplesmente é o que é. No momento em que temos algo em nós que julga, que condena, que diz que não devia ser assim, vamos sentir divisão.

A maioria de nós aprendeu que entrar na divisão em relação a certas coisas é natural. Fomos ensinados que estaríamos nos iludindo se não entrássemos na divisão em relação a certas coisas, acerca de nosso próprio sofrimento ou ao de outra pessoa. É como se realmente não fôssemos uma pessoa de sentimentos se não experimentássemos internamente certa divisão perante eventos específicos.

Mas essa é uma das partes surpreendentes e chocantes de entrar nos reinos mais profundos da percepção: compreendemos que não existe uma razão justificada para argumentar com a realidade, pois jamais venceremos a batalha, Discutir com a realidade é um caminho certo para o sofrimento, uma prescrição perfeita para a angústia.

Pior ainda, descobrimos que estamos presos aquilo com que estamos discutindo. Se aconteceu há trinta anos ou ontem pela manhã, se brigamos com isso, estamos presos à armadilha. Estamos vivenciando a mesma dor, repetidamente. Brigar com algo não nos ajuda a ir além; não nos ajuda a lidar com a situação. Na verdade, nos aprisiona; nos une àquilo com que estamos argumentando, seja o que for.

É surpreendente, de fato, perceber que nenhum de nossos argumentos contra o que é, ou com o que foi, tem qualquer fundamento na verdade. Nossos argumentos são apenas parte do estado de sonho. Agora, dizer que eles são parte do nosso estado de sonho ou ouvir alguém dizer isso não é suficiente. Cada um de nós tem de olhar por si; cada um de nós tem de olhar para a própria vida emocional a fim de trazer à consciência qualquer coisa que tenha o poder de nos levar a vivenciar a divisão. Precisamos olhar para as nossas emoções e vê-las do jeito que são; precisamos questionar sua veracidade, meditar sobre elas em silêncio e deixar que as verdades profundas se revelem.

Como disse, esse não é necessariamente um processo analítico. A investigação verdadeira é vivencial. Não estamos tentando impedir que algo aconteça, pois a investigação verdadeira não tem nenhum objetivo a não ser a própria verdade. Ela não está tentando nos curar ou nos impedir de sentir sentimentos desagradáveis. A investigação não pode ser motivada somente por um desejo de não sofrer. O impulso de não sofrer é compreensível, mas há algo mais que deve acompanhar a investigação genuína. que são o desejo e a disposição de enxergar o que é verdadeiro, de

ver como nos colocamos em conflico. Assim que percebemos que é você e eu que nos colocamos em conflito - que ninguém e nenuma situação em nossa vida tem o poder de fazer isso -, vemos que nossa vida emocional é um portal. Ela oferece um convite para olharmos profundamente, para olharmos de um estado des perto - um estado que não está tentando mudar ou alterar nada, mas é em si um amante da verdade.

Pode ser fácil interpretar erroneamente o que estou dizendo, concluindo que todas as emoções negativas são indicações de divisão. Não é isso que quero dizer. Alguém pode estar triste sem se sentir dividido. É possível sentir pesar sem estar dividido. Uma pessoa pode sentir certa raiva sem estar dividida. Em nossa cultura ocidental não temos muito contexto para essa ideia. No Oriente, entretanto, existem litanias inteiras de deidades iradas; no budismo tibetano e nas tradições hindus, por exemplo, as personificações de Deus e do Divino nem sempre estão sentadas sobre uma flor de lótus no céu, rindo de felicidade. Nessas tradições, como em outras pelo mundo, a espiritualidade inclui uma vasta gama de experiências emocionais humanas. Assim, não deveríamos concluir que a presença de emoções negativas - ou do que nós chamamos de emoções negativas - seja uma indicação de ilusão. A chave é se a emoção se origina ou não da divisão. Se sim, então a emoção está baseada em uma ilusão. Se você investigar sinceramente e descobrir que uma emoção não se origina da divisão, então ela não está baseada na ilusão. Enxergar isso nos abre um amplo leque de emoções. Nós nos abrimos, tornamo-nos um grande espaço no qual os ventos das diferentes emoções podem viajar por nosso sistema. A liberdade de que falo, então, é a liberdade proveniente das emoções que se originam da divisão



COMO AS EMOÇÕES MANTÊM COESA A ILUSÃO DO SELF SEPARADO?

Se olharmos profundamente, veremos que o medo é o esteio que mantém intacto nosso senso de self emocional. Então, por que temos tanto medo? Porque temos essa ideia limitada e separada de quem somos. Temos uma imagem de nós mesmos como alguém que pode ser machucado, ferido ou ofendido.

Temos de ver, por meio de nossa investigação, que esse senso de self esse senso separativo é uma ilusão. Não é verdadeiro. É uma mentirinha que contamos a nós mesmos. É aquela pequena conclusão - que eu sou a pessoa que imagino ser - que nos abre ao medo. Porque a pessoa que imaginamos ser também imagina que pode ser ferida a qualquer momento, aquele senso de self ilusório vê a vida como muito perigosa. Alguém pode chegar e dizer uma palavra rude, e o senso de self ilusório pode imediatamente entrar no conflito, na dor e no sofrimento. Sentimo-nos inseguros porque nosso senso de self pode ser machucado muito facilmente.

Nosso senso de ser um self separado origina-se de uma mistura de pensamento e sentimento. A maior parte de nossas emoções deriva do que pensamos. Abaixo do pescoço, nosso corpo é uma máquina duplicadora do que nossa mente pensa. O corpo e a mente estão conectados; são dois lados de uma moeda. Sentimos o que pensamos. Quando temos uma emoção, o que na verdade estamos experienciando é um pensamento. O pensamento em si com frequência não é consciente. O surpreendente quanto à forma como somos capturados é que nosso centro de sentir, nosso centro cardíaco, duplica o pensamento em senti mento; ele transforma os conceitos em sensações muito reais, vívidas e sentidas.

Quando falo do nível da mente e do nível do coração pode soar como se eu estivesse falando de duas coisas diferentes. Estou na verdade falando de um fenômeno: corpo e mente, sentimento e emoção, dois lados de uma moeda.

À medida que despertamos das fixações e das identificações nos níveis da mente e das emoções, passamos a ver que não há alguém para ser ferido; não há alguém ou alguma coisa para ser ameaçado pela vida. Na verdade, somos a própria vida. Quando vemos e percebemos que somos a totalidade da vida, não temos mais medo dela; não temos mais medo do nascimento, da vida, da morte. Mas até que possamos ver isso, vamos enxergar a vida como intimidadora, como uma barreira que, de alguma forma, temos que ultrapassar.

Despertar no nível da emoção nos liberta dessas fixações baseadas no medo. Quando começamos a despertar nesse nível, somos livres para sentir o mundo de uma forma mais profunda; todo um potencial diferente torna-se disponível para nós. O corpo emocional, toda a área centrada no coração, é de uma sensibilidade incrível. Esse é o órgão do sentir do não manifesto. É por meio dele que o não manifesto sente a si mesmo, se autovivencia e conhece a si mesmo. Isso é bem diferente de um conceito de "eu" sentindo a si próprio e se autoencontrando mediante emoções e sentimentos. Quanto mais despertos estamos, mais somos capazes de experienciar todo corpo-mente como um literal instrumento de sentir do self absoluto, unificado.

De certa maneira, quanto mais despertamos do corpo emoCional, mais o corpo emocional desperta. Ele se abre. Quanto menos conflitados estamos em nossas emoções, mais aberto fica O nosso corpo emocional. Isso porque, quanto mais entendemos que não há nada a proteger - que todos os pensamentos, ideias e crenças que nos levam a entrar na proteção emocional são falsos -, mais abertos ficamos.

Despertar nesse nível é uma grande abertura do coração esPiritual. Talvez você já tenha visto representações de Cristo em que ele está, literalmente, segurando e abrindo seu peito e revelando um lindo, radiante e brilhante coração. Essa é uma representação da abertura do coração espiritual. Um ser desperto é um ser tremendamente disponível emocionalmente - alguém que não está se defendendo nos níveis emocional e intelectual. Parte do que acontece quando despertamos no nível do coração é que experienciamos a nós mesmos em um sentido absoluto para ser totalmente sem defesas. Quando estamos sem defesas, o que flui naturalmente de nós é amor - amor incondicional.

A natureza maior da realidade não discrimina; a realidade é o que é. O sinal mais verdadeiro de um coração desperto é que ele é um amante que não discrimina o que é. Isso significa que ele ama tudo porque vê tudo como é. Esse é o nascimento do amor incondicional. Quando esse amor incondicional começa a se abrir dentro de nós, é a forma pela qual a realidade expressa a si mesma. A realidade apaixonando-se por si mesma acontece através do coração desperto. Não é algo pessoal. É a realidade, um amante que não discrimina, apaixonado por si mesmo. Ela ama tudo e a todos. Ama até mesmo aqueles que, de um nível pessoal, você pudesse não amar. É surpreendente quando começamos a perceber que amamos coisas, eventos e pessoas que não amamos no nível da personalidade. Compreendemos que não importa.

Quando a verdade é despertada, ela ama todas as coisas; ama as pessoas de que sua personalidade gosta e ama aquelas de que sua personalidade desgosta. O coração desperto ama o mundo como é, não como poderia ser. Quanto mais despertamos nesse nível, mais experimentamos o amor incondicional, que é um dos chamados mais profundos da vida humana.


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